quarta-feira, abril 29, 2009

Posturas, dúvidas e sos

Sem colagens patológicas e sem fundamentalismos, a psicologia clínica foi sempre o que desejei fazer, aparte de escrever para crianças. Inspirada na saúde mental e vislumbrada pelo mapeamento humano, pelo iceberg Freudiano, humanista convicta, sempre me considerei uma Rogeriana, como postura complementar. Porque originalmente e, desde os meus 15 anos, vou beber incondicionalmente à Psicanálise, a Freud, a Jung, á corrente de interpretação de dados sensoriais. A terapia Centrada no cliente é precisamente o oposto, só na medida em que é não-directiva e mais voltada á prescrutação atenta e menos á interpretação e limitação dos sentimentos e crenças do cliente. Por necessidade de ampliar as "vistinhas", passo a expressão, em termos práticos, lá vou eu aos manuais de teorias e terapias cognitivas e comportamentalistas. E creio ter criado uma certa aversão ao comportamentalismo, quando sozinho.
Aquando de um dos meus estágios, o de Saúde Mental - a orientadora era de registo psicanalista - voltei a sentir a necessidade que existe de definirmos a nossa postura profissional não-mesclada, afastada, digamos assim, de todas as outras posturas. Ao considerar-me uma apaixonada de psicanálise, vejo agora que este registo, por si só, não me tem trazido os resultados esperados, nem mesmo alicercado á postura rogeriana.
Há dias a reler Ellis e Beck, deparei-me, na sua origem, com Epicteto, com os gregos e também com Russel, com o conservadorismo. Acredito na complementaridade de terapias e não no milagre que cada uma delas pode operar. E a cautela e distancimento de cada uma na análise de resultados práticos em clínica, garante-me, se não mais, fuga ao enviesamento - que ás vezes somos quem coloca as palas á aplicação de programas de intervenção e até mesmo aos resultados obtidos - no recolhimento de dados e no processo de ganhos terapêuticos.
Dou por mim a pensar que a par com Ellis, Beck, Cautela, Mahoney, Homme, Meickenbaum, também eu me desiludo pela ausência de respostas da área psicanalítica e descubro fundamentação na multidisciplinaridade teórica e prática do pós-Freud e pós-Skinner.
A par desta afinidade, existe também, na minha forma de afirmação pessoal, uma área problemática gastroduodenal e a dúvida permanente de não saber se estou a fazer tudo o que posso e devo na prática clínica. Aconselho-me e peço orientação em algumas situações mas, antes, invoco todos os psicoterapeutas idos, como se pedir a ajuda fosse um recurso menos bem visto. Fragilidades reconhecidas. Limitações passadas ao papel. De que forma assumir as dúvidas senão mostrá-las? Socorro :) e caio, e vou em queda livre!

segunda-feira, abril 27, 2009

A tua sombra ainda és tu.

Ando á roda de mim. Centrada, se preferirem. Em processo de limpeza. De procura de equilibrio.
Aprender a viver connosco, com as nossas virtudes e defeitos, com as nossas escolhas e rejeições, com os nossos sucessos e fracassos é um processo muitas vezes doloroso, fisicamente. Gastamos energia a ocultar o que devíamos amar, entender. Tenho amigos que andam há anos á procura de si mesmos nas mais variadas florestas do pensamento. Desde Reiki, a Yoga, do Tarot á Psicanálise, passando pelo Johrei, pelo Espiritismo, por Gurdjieff, pelo Catolicismo, e os caminhos buscados são sempre iguais. Um rumo feliz existencial. Uma procura incessante. Todos os caminhos nos falam de mágoas e ressentimentos, de passados conflituosos, de permissas, de perdão, de crescimento e aceitação, de luz e de escuridão. Cabe-nos a nós encontrar ferramentas pra nos conhecermos melhor. Passamos vidas inteiras a canalizar energia para ocultar de nós e/ou dos outros partes de nós perdidas, ou usamos chaves de entrada com códigos errados, tentamos portões de acesso á paz que mal ou bem, e à medida que amadurecemos, pensamos saber encontrar. Os nossos lugares de apreço, os nossos jardins, a nossa casa, os nossos entes queridos, lugares a que pertencemos mas que não nos pertencem e onde vamos buscar força pra lidar com adversidades. Os puzles continuam com peças dificeis de encaixar, sabemos que erramos mais uma vez e fazemos caminhadas cansativas sem guião, com ou sem guia, e mesmo que o tenhamos, o mestre das coordenadas, continuamos sem saber ver a nossa sombra poluída nos tantos anos percorridos. Que adianta um mestre, um guru, um anjo, uma luz se diante de nós, sozinhos e em reflexão, estamos cegos para as possibilidades de nos encontrarmos a crú? Em carne viva, na nossa pele, tal como somos? Creio que até para nós construímos máscaras que nos vão servindo para a fuga em frente...
O medo de nos olharmos no espelho da alma, esse medo maior que nos captura e nos mantém silenciosos e oprimidos, rancorosos e enraivecidos, revoltados e conformistas, apáticos e passivos mediante os nossos objectivos, as nossas relações afectivas, descentrados do que realmente importa. A limpeza que se vê no exterior esconde tanto lixo sedutor e tenebroso. O melhor é procurar ajuda se sentimos que sozinhos jamais lá chegaremos. O corpo pesa uns kilos, as mágoas e ressentimentos pesam bem mais. Vamos nos livrar dos macacos no sotão e libertá-los rumo ao seu habitat natural?
A sombra pode ser patológica, se a mantivermos cativa dos nossos preconceitos e medos.
Podemos passar uma vida a fugir e, enquanto isso produzimos doenças, não só comportamentais, também psicológicas, crónicas e terminais, sem darmos conta nunca que o fazemos.Quem percebe disto é o Dr. Emidio Carvalho. Que é especialista em Reflexologia. Porque há possibilidades dentro da possibilidade. Para quem está no Porto ou arredores, o workshop será no Hotel Tuela, dia 6 de Junho, das 12,30 ás 21h mas podes encontrar o calendário e agenda respectivas de conferências, cursos e palestras no site com o seu nome.

quinta-feira, abril 23, 2009

quinta-feira, abril 16, 2009

Urge saber ouvir

Os contadores de histórias sempre arrastaram multidões. Aconteceu o mesmo em Jerusalém há muito tempo. Quando alguém tem algo a contar sobre si mesmo ou sobre outros, real ou imaginado, mas que tantas vezes serve de lição ou guia a atitudes e acções, expectativas e condutas que tomamos diariamente, enfrentar a história, faz-nos pensar na possibilidade do self desempenhar tal papel e nas consequências que daí advenham. Os contadores de histórias de Baltar, em Paredes, Porto, contaram a história da pedra no caminho que não serviu pra fazer sopa mas pra enriquecer a quem a soube empurrar. Os obstaculos, os sacrificios são um caminho árduo mas frutífero. Onde há atalhos e pressa, não há recompensa pessoal.
Uma iniciativa a par com a necessidade de promoção da leitura.
Porque há caminhos nas letras.

segunda-feira, abril 13, 2009

Novas ditaduras culturais

Um breve excerto de entrevista de quem sabe e pra quem quer saber.

No que a vida se torna...

A infância é, por excelência, um percurso de aprendizagens, do novo, em que adquirimos as ferramentas necessárias pra crescer, por assim dizer, o kit de sobrevivência. Á medida que crescemos e trocamos impressões com amigos e família, que tomamos contacto com o mundo real dos outros, damos conta (ou não?) que nem todas são infâncias sãs. Porque o mundo está terrivelmente doente, e todos os remédios da cura que se encontram ao nosso dispôr são colocados á distância considerável do amanhã, que pode nem lá chegar.
As crianças aprendem connosco, moldam-se por imitação e depois, por conta própria, a vida os encarrega de moldar, dependendo dos caminhos trilhados, das escolhas ao longo deles, do ambiente que os rodeia. Que o homem não se faz a si mesmo, já sabemos. Somos uma multidiversidade de biologia e antropologia, sociologia, filosofia, psicologia e tantas coisas mais. Enquanto responsáveis pela educação, pelos laços afectivos e pelo desenvolvimento geral dos menores, devemos cuidar sem desmazelo, desta imensidão de dados e conhecimentos que nos são facultados, através da experiência-erro-aprendizagem. Existe uma imensa bibliografia sobre esta matéria e outras, sobre o que fazer com crianças sem infância. Deparo-me com casos (bem sei que grave é a fome e a sede sem saciação, seja de alimentos ou de afectos) gravíssimos de negligência por narcizismo, pais focados em si, centrados no seu bem estar. E é nessa era que estamos. Saciar os bens de consumo dos miudos pra atenuar a falta de tempo pra eles.
Do livro Ajudar as crianças a ultrapassar as perdas, de Brenda Mallon, extraio o seguinte:
As crianças aprendem o que vivem
Se uma criança viver com criticismo, aprende a condenar.
Se uma criança viver com hostilidade, aprende a combater.
Se uma criança viver com zombaria, aprende a ser tímida.
Se uma criança viver com vergonha, aprende a sentir culpa.
Se uma criança viver com tolerância, aprende a ser paciente.
Se uma criança viver com louvores, aprende a apreciar.
Se uma criança viver com encorajamento, aprende a confiança.
Se uma criança viver com equidade, aprende a justiça.
Se uma criança viver com segurança, aprende a ter fé.
Se uma criança viver com aprovação, aprende a gostar de si mesma.
Se uma criança viver com aceitação e amizade, aprende a encontrar amor no mundo.
A perda da infância
Quando os adultos pensam em "perda", estão, geralmente, a pensar em acontecimentos críticos da vida, como a morte ou o divórcio; porém, quando se pede ás crianças que falem das suas perdas, a extensão das suas associações é frequentemente surpreendente. As crianças falam da dor de perderem o melhor amigo, por causa de uma discussão, de parecerem tontas diante dos seus pares, de deixarem de ter a atenção dos pais depois do nascimento de um irmão mais novo ou de sentirem que perderam alguém muito importante, quando a mascote da escola morre. Na nossa "superioridade" de adultos, as mais das vezes não damos importância a estes acontecimentos ou consideramos que são atribulações menores. A nossa linguagem corporal passa a mensagem:" Ah, isso não é uma verdadeira perda, eu conheço bem as "verdadeiras perdas", como se tivessemos um conhecimento interiorde uma tabela das perdas que uma criança não pode conhecer! Mas perda é perda. O que a criança sente é a verdade real e é isto que temos de ter sempre presente, quando trabalhamos com elas.
O sofrimento da perda na infância é uma dor crua e penetrante que pode ser devastadora. Os adultos têm o benefício da experiência e do conhecimento passados, podem perspectivar a perda, mas não é esse o caso das crianças. Enquanto nós podemos ter descoberto maneiras de nos reconciliarmos com a dor - tendo descoberto estratégias para a ultrapassar, visto como outros o conseguiram ou acreditam que a dor irá passar, tal como aconteceu no passado - as crianças não possuem este reconfortante conhecimento, por muito ínfimo que possa ser. Demasiado frequentemente, nós, "as pessoas maduras", tornamo-nos insensíveis ao sofrimento que pode ocorrer na primeira fase da vida e ignoramos as profundas emoções que a perda provoca na infância.
Perder a oportunidade de olhar e ver, ouvir e perceber, de ser tocado e sentir é o mesmo que acomodar o estômago á fome, sem procura de alimento. Porque há silêncios que são gritos e não ousam espaço! Fica um alerta vermelho!

sábado, abril 11, 2009

O teatro da Neurose

O lugar para onde me retiro com os meus botões (...)
é um teatro em pleno vento, povoado de uma multitide donde saem,
como a espuma na extremidade das vagas, o murmúrio entrecortado
da palavra, os gritos, os risos, as turbilhões, as tempestades,
a repercussão dos balanços planetários e os esplendores excitados
da música. Esse teatro, que eu percorro secretamente desde os meus
mais jovens anos, sem lhe atingir as fronteiras, tem duas faces,
inseparáveis mas opostas, um direito e um avesso,
semelhantes às de uma medalha ou de um espelho.
in Les tours de Trébizonde et autres textes, NRF, Gallimard, Paris, 1983
Catherine Chabert, através da análise Freudiana, acrescenta: O novo mundo exterior fantasmático da psicose quer colocar-se no lugar da realidade exterior; pelo contrário, o da neurose gosta de se apoiar, como no jogo da criança, sobre um fragmento da realidade - um outro contra o qual se deve defender - dá-lhe uma particular importância e um sentido secreto ao qual, através de um termo nem sempre apropriado, chamamos simbólico. E acrescenta ainda: Estas considerações sublinham, uma vez mais, a dupla inscrição na realidade externa e no mundo fantasmático interno, bem como a instalação de um sistema de relações de um a outro que se define como uma relação simbólica. Esta implica uma diferenciação tópica entre consciente/pré-consciente e inconsciente que se traduz, claro está, num ter em conta a realidade exterior (através dos factores que atrás citámos: a neurose gosta de se apoiar num fragmento da realidade), ao mesmo tempo que preserva o "sentido secreto", o do teatro privado no seio do qual se desenrolam encenações fantasmáticas.
in a Psicopatologia à prova no Rorschach,, Climepsi Editores

quinta-feira, abril 09, 2009

A Violência Somos Nós!

O IPNP (Instituto de Psicologia e Neuropsicologia do Porto) tem o prazer de anunciar que se encontram abertas as inscrições para a formação "A Violência Somos Nós: Violência e Relacionamento Interpessoal", numa iniciativa em parceria com a entidade Pó De Ser, Encontros Terapêuticos.
[ Horário ]08 de Maio de 2009 :: 21:00h - 23:30h09 de Maio de 2009 :: 09:00h - 12:00h 14:00h - 18:30h
As vagas são limitadas. No sentido de efectivar a candidatura, agradecemos o envio das seguintes informações:
Nome completo; Morada; Profissão; Local de Trabalho; E-mail; Telefone/Telemóvel; Forma de Pagamento (numerário, cheque ou transferência bancária).Pagamento: Numerário, cheque ou transferência bancária [NIB: 0018 0003 1745 1857 02023]. Uma vez este recepcionado, a inscrição será confirmada. Segue em anexo a respectiva programação e prospecto publicitário, contendo todas as informações necessárias para proceder à inscrição.

quarta-feira, abril 08, 2009

Subscrevendo Savater, em forma, grau e número

A análise que vão ler diz respeito ao ensino espanhol e ás suas falhas, mas creio que todos nós que vivemos a realidade portuguesa nesta matéria, subscrevemos por inteiro a análise. Urge mudar este estado real de coisas. Estamos a criar monstros que nos devoram! Na minha opinião, claro!
Especialistas reunidos em Espanha
Aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar Especialistas em educação reunidos na cidade espanhola de Valência defenderam hoje que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores. Os participantes no encontro 'Família eEscola: um espaço de convivência', dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas. 'As crianças não encontram em casa a figura de autoridade', que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater. 'As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa', sublinhou. Para Savater, os pais continuam 'a não querer assumir qualquer autoridade', preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos 'seja alegre' e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores. No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, 'são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os', acusa.. 'O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar', sublinha. Há professores que são 'vítimas nas mãos dos alunos'. Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que 'ao pagar uma escola' deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão 'psicologicamente esgotados' e que se transformam 'em autênticas vítimas nas mãos dos alunos'. A liberdade, afirma, 'exige uma componente de disciplina' que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade. 'A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara', afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, 'uma oportunidade e um privilégio'. 'Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina', frisa Fernando Savater. Em conversa com jornalistas, o filósofo explicou que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que 'têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos'. 'Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia', afirmou. Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que 'mais vale dar uma palmada, no momento certo' do que permitir as situações que depois se criam. Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres. Segundo Savater, as alternativas são muitas e todas ao nosso alcançe.

segunda-feira, abril 06, 2009

Amantes de fotografia

É assim. Quem concorrer pode ganhar. O ingrediente absolutamente necessário pra este concurso é a paixão pela imagem. A Olhares promove, a Fnac e a Sony patrocinam e só tu podes fazer com que tal concurso aconteça. Inscreve-te aqui.

quarta-feira, abril 01, 2009

Escrita: educação e criatividade

A psicologia está na base da arte de nos expressarmos. A escrita influencia-nos. A compreensão da escrita atinge-nos e nunca nos deixa indiferentes. Somos outros depois de qualquer leitura apreendida. A expressividade da escrita é uma forma de arte ligada aos afectos, e depende apenas deles. A Universidade do Porto oferece gratuitamente um colóquio com a presença de Mário Claúdio, amanhã, dia 2 de Abril, pelas 18h, sobre o papel da expressividade e da educação no vasto mundo da escrita. A não perder.
No ia 15 de Maio, pelas 17,30h a conferência é outra, mas da mesma importância. 3 possíveis cenários são rasurados por Michael Young quanto á educação no futuro. Valerá a pena assistir.